O método do Saṁsāra–Yoga
Do método
Tom Oliveira
5/15/202421 min ler


O método que nomeamos de Saṁsāra-yoga vem a ser uma tentativa de encontrar um ponto de flexão entre os conhecimentos do oriente e do ocidente. O Saṁsāra-yoga encontra-se fundamentado nos três principais darśanas do hinduísmo (Tantra, Vedānta e Sāṇkhya), nas técnicas fundamentais de cada Yoga clássico; na psicanálise; na teoria Reichiana da 'couraça muscular do caráter'; na concepção de Bérgson acerca da percepção; no conceito de 'vontade' de Shopenhauer (mais tarde nomeado por Nietzsche como 'vontade de potência'); em Kant, em seus estudos acerca da 'razão prática' e nos filósofos pré-socráticos, especialmente em Heráclito.
Este método tem como finalidade principal oferecer ao praticante os conhecimentos técnicos, filosóficos e psicológicos do Yoga, do Tantra, do Sāṇkhya, do vedānta e os conhecimentos básicos da psicologia e da filosofia do ocidente, necessários à realização de uma travessia pelo ponto de inflexão da castração.
A castração se constitui em um profundo estado de alienação no qual o frágil e debilitado eu-sócio-cultural (jiva–'eu condicionado') encontra-se dividido e dissociado do poder vital que o anima (kundalinī), sem vontade própria e separado das dimensões cósmicas, eternas e divinas da vida. No corpo a castração está estruturada como uma profunda rigidez em toda a região posterior, com pontos de maior rigidez nas regiões dos três nós (granthis) do canal do susumnā-nadī: perineo, diafragma e região centro-mediana do lobo frontal do cérebro. Na psiquê a castração se apresenta como crenças e complexos disfuncionais (cegueira), e sua causa são os traumas vivenciados pelo jiva em formação a cada encarnação. A travessia da castração é operada por meio da ativação do poder superior da kundalinī, nomeada aqui como 'gozo-próprio do corpo'. A ativação deste poder vital propiciará a revelação do corpo sutil, o 'corpo diamantino' do Hatha-Yoga. A revelação deste corpo, composto de prāṇa, nadīs e cakras, vivificado pela Śakti-kundalinī, determinará o fim de todas as doenças, transtornos e desequilíbrios e a conquista da eternidade.
Baseado em sua fundamentação epistemológica, o método visa alcançar a transcendência (Ātman-Ser-Consciência) através da imanência (energia-gozo). Sustentado no pilar central da imanência: consciência, respiração e sensação, o caminho do método passa pelo desenvolvimento da tolerância às sensações da rigidez (couraça muscular do caráter): dor, angústia, enjôo, náuseas, tontura, fobias, depressão, pânico, irritação. Tal tolerância é o pilar central do método, pois é justamente a fuga da dor, da angústia e do desespero que desenvolve em nós uma psiquê frágil e incapaz de viver o desejo, nervos irritados, uma cognição neurótica e disfuncional e uma profunda incapacidade para a vivência do prazer e para o amor (histeria). A tolerância à dor e o despertar da kundalinī propiciam a revelação dos elementos fundamentais da travessia, além de serem a base Psico-cognitiva necessária ao desenvolvimento dos yamas e niyamas (ahiṁsā, satya, asteya, brahmacarya, aparigraha, śauca, santoṣa, tapas, svādhyāya e īṣvara-pranidhāna) e da superação dos kleśas e da birra infantil.
Fundamentalmente, o Saṁsāra-yoga buscou encontrar uma síntese entre os três principais pontos de vista hindu quanto à realidade última do Ser e à criação do universo: Tantra, Sāṇkhya e vedānta. Em relação às técnicas, o método se baseia nos métodos clássicos e medievais do Yoga: rāja, jñāna, hatha, laya, kundalinī, karma, mantra e bhakti, a partir de uma releitura das principais obras de cada época, em busca, principalmente de um tronco único. Em nossa cultura, o método está fundamentado na análise do caráter de W. Reich, especialmente na sua concepção da 'couraça muscular do caráter'; na psicanálise, na psicologia cognitiva, na neuro-ciência e nos filósofos vitalistas.
O método propõe uma revisão profunda na concepção do desejo. Buscamos entender o desejo de forma positiva, e o sofrimento como consequência da rigidez das atitudes do "eu" frente às demandas do seu próprio desejo e das demandas do desejo do outro, elemento causal das frustrações. Esta rigidez aparece na forma de uma atitude 'hístero-esquizo-paranóide'(neurótica), evoluindo perigosamente nos tempos atuais para uma atitude perversa(sadismo e masoquismo). Tal atitude rígida tem a finalidade de controlar o desejo do outro (incontrolável e insuportável) e os impulsos ligados ao próprio desejo: sexualidade, raiva e amor. No núcleo da rigidez encontramos, enclausurados, fortes emoções de medo e raiva, sentimentos de culpa, inveja, ciúme e impotência (birra infantil).
O Saṁsāra-yoga propõe um método prático e experimental que possa levar o sādhaka (praticante) a perceber em seu próprio 'corpo-psiquê' a estrutura de rigidez, dor e desespero, o "corpo de dor" como assim me afirmou uma cliente em análise, e, ao perceber, ir-além, desejar ir além da cultura de dominação, soltar, aos poucos, a rigidez que nos estrutura na forma de controle do desejo do outro. Ir-além da cultura do capital é entrar em contato com o poder divino que nos alimenta e recuperar o corpo eterno de energia e luz que nos pertence por natureza própria.
Fundamentado nas noções de repressão e inconsciente, o Saṁsāra-Yoga busca, através da técnica do Saṁyama, operar na psique o levantamento do recalque em torno dos saṁskāras e vāsanās (fantasmas e tendências condicionadas pelos fantasmas), utilizando-se de dois princípios técnicos fundamentais da psicanálise: 'associação livre' e 'recordar semrepetir (atuar) e elaborar' e em duas técnicas fundamentais de meditação (dhyāna): 1) "ver dentro da natureza própria" - técnica através da qual se opera o fenômeno da extinção (nirodha) dos saṁskāras e vāsanās inadequados e disfuncionais e 2) "meditação do ser-enquanto- ser no mundo" ou "lavar os pratos" - técnica fundamental do Saṁsāra-yoga através da qual se opera a tomada de consciência da realidade tal como Ela é. No método o efeito desta técnica nós nomeamos de 'suprema aceitação da realidade'. A técnica do ajapa-japa do Tantra é utilizada, após a iniciação (krpā-guru), como o meio principal para alcançar nirodha e a ativação da kundalinī.
No método a ativação da kundalinī é operada em duas frentes: no "corpo", através dos fortes estímulos das técnicas do Hatha-Yoga; e na "psique", através do levantamento do recalque dos saṁskāras e vāsanās (fantasmas e tendências) utilizando-se do saṁyama.
Um fundamento importante da técnica é que o que está recalcado não é para ser manifestado em ações e sim para recordar, liberar e superar (recordar e soltar). Esta superação dos saṁskāras e vāsanās disfuncionais do passado permite que se solte a rigidez da 'couraça muscular do caráter' que, em última instância, é a prisão destes fantasmas; liberado estes, a prisão torna-se obsoleta e desnecessária!
A finalidade última do método do Saṁsāra-yoga é a ativação da kundalinī, dos siddhis e a experiência fundamental do Samādhi: a verdadeira cura de todo sofrimento.
EPISTEMOLOGIA
Episteme é um termo grego que significa ciência. Epistemologia é o estudo e a investigação da validade do método científico. O termo Epistemologia foi introduzido aqui como sendo o estudo da validade do método de Yoga. Diz respeito aos fundamentos econômico-culturais (realidade-contexto), filosófico-cosmológicos (fins), psicológicos, científicos, técnicos e didáticos (meios) do método. Diz respeito também à definição de sua técnica fundamental, da finalidade do método e do siddhi (poder) fundamental a ser alcançado.
DEFINIÇÃO
O Saṁsāra é um método de Yoga que não tem como finalidade apenas o despertar de uma consciência transcendental, Una e Absoluta. Através do desenvolvimento dos mecanismos de percepção, de ampliação dos sentidos, do auto-controle emocional e mental e do desapego, o método tem como finalidade principal a expansão da consciência sem reprimir a natureza humana, respeitando as suas limitações culturais e historicamente determinadas. A sua finalidade básica é o despertar do poder da Kundalinī, propiciando a plenitude da consciência imanente no mundo e, ao mesmo tempo, a possibilidade de transitar pelos caminhos da transcendência. Deste modo, é um método imanente-transcendente de Yoga.
A nossa percepção do Ser é de que Ele, enquanto 'Ser-no-mundo', é imanente e transcendente. Na imanência o corpo é a estrutura do Ser, pois é através do corpo que Ele se manifesta. Neste tipo de percepção, o corpo (energia) e a consciência juntos formam a essência do Ser manifestado. Na imanência não se pode sentir a existência do Ser sem um universo e sem um corpo através do qual Ele se manifeste e goze. Nos Śāstras tāntricos existe a afirmação de que a Prakrti existe para o Gozo do Puruṣa, ou seja, todo o universo existe para o Gozo da consciência e para servir aos seus desejos.
No entanto, para que a consciência possa tornar-se o que Ela é, Senhor da Prakrti, Ela precisa desenvolver os seus corpos, ou seja, desenvolver os mecanismos energéticos, emocionais e mentais destes corpos. O mecanismo básico utilizado para se desenvolver os corpos da consciência manifestada é o despertar da Kundalinī, e esta é a finalidade fundamental do Saṁsāra-yoga.
Fundamentação econômico-cultural
O nosso sistema econômico-cultural se baseia em quatro lógicas perversas e alienantes:
1) A lógica do capital\consumo–Tudo tende ao objeto de consumo, gerador da 'mais-valia', que fundamenta o 'mais-gozar' do capitalista. O 'mais-gozar' como sendo o fruto da 'mais-valia' é o gozo fundamentado que se estrutura na falta do outro. O capitalista não goza do que tem, pois é um excesso que o corpo não pode sentir, ele goza do que o 'outro' não tem.
2) A lógica do senhor-servo – Tudo tende ao poder e à posse através do controle.A necessidade do controle para se estabelecer o poder e a posse, necessidade esta gerada pelo "pavor universal de viver", estrutura no corpo humano uma profunda rigidez, estrutura esta que fundamenta o estado de castração da condição humana. Este estado de castração isola o frágil 'eu social' de seu estado divino e do seu poder, a Kundalinī,. O sentimento de posse somente é possível através de um endurecimento do corpo, e este endurecimento é o que Reich denominou de 'couraça muscular do caráter'.
3) A lógica da realidade virtual - Tudo tende para o imaginário como forma de se fugir tanto da castração quanto da realidade hípercompetitiva do híperconsumo. Esta fuga para o imaginário provoca um maior isolamento dos indivíduos, desenvolvendo as condições sociais necessárias para a expansão da paranóia, da depressão e do narcisismo, que são três características fundamentais das neuroses atuais.
4) A lógica do narcisismo - O estado de castração e de isolamento em que se encontra o jīva na era atual, associado à hípercompetição, ao híperconsumo e ao desenvolvimento da realidade virtual, favorece o surgimento do hípernarcisismo, caráter este que vem sendo nomeado pela psiquiatria de boderline. Este tipo de pessoa cria suas próprias regras de convivência social, sempre baseadas nos seus interesses cada vez mais narcisistas.
A análise da fundamentação econômico-cultural nos mostra um ser-humano dividido entre o seu frágil e doente 'eu social' e o 'eu divino'. A estrutura do 'eu social' é muito frágil e não suporta o despertar do poder divino da Kundalinī.
Em função disso, o Saṁsāra -yoga preconiza em seu método as poderosas técnicas do Hatha-yoga em sua fase intermediária, para preparar os nervos, os orgãos, os tecidos, os músculos e os sistemas do corpo físico para que este possa tornar-se um veículo de manifestação desta força cósmica universal.
Uma das percepções mais importante da fundamentação econômico-cultural é a existência, no
corpo do jīva, de uma couraça de rigidez muscular, couraça esta que tem uma função econômica, na psiquê, de conter o desejo e ,consequentemente, o poder da Kundalinī. A couraça serve como um sistema de controle estruturado no corpo pela educação desde a infância mais remota, transformando o jīva em um ser frágil, doente e obediente..
O método do Saṁsāra -yoga leva em conta esta rigidez e a fragilidade do 'eu-social' do jīva na aplicação do seu método, preconizando uma fase básica de preparação, na qual a rigidez deve ser trabalhada com consciência, respiração e alongamento gradual. Através da fase básica o aluno é preparado para as sequências de 'prāna-vāyu-āsanas', tornando o seu corpo ápto para desenvolver as poderosas técnicas do Hatha -yoga clássico, técnicas estas que, quando aplicadas com consciência e sabedoria, ativam e distribuem o poder da Kundalinī no corpo.
Assim, a análise da fundamentação econômico-cultural nos mostra a realidade na qual o método de Yoga necessariamente terá que se adaptar. Segundo o Tantra, "a prática deverá ser realizada de acordo com a pessoa, o lugar e o país" (Avalon, Arthur, Princípios del Tantra, Editora Kier, Buenos Aires).
A nossa fundamentação econômico-cultural se baseia em Hegel, Nietzsche, Marx, Weber, Freud, Reich, Lacan e nos sociólogos da pós-modernidade.
Fundamentação filosófica e cosmológica
No oriente: 'madhyama-cara-tantrico-shesvara-vedānta-Sāṇkhya-yoga', O Saṁsāra-yoga se fundamenta em uma síntese dos três darśanas principais do hinduísmo: Tantra, Sāṇkhya e vedānta.
No ocidente: Vitalistas e racionalistas: Heráclito, Espinoza, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Bergson e na filosofia da imanência de Derrida.
A fundamentação filosófica e cosmológica nos mostra os fins a serem alcançados pela prática do método.
Fundamentação psicológica
No oriente: Sāṇkhya
No ocidente: gestalt, psicanálise (Freud e Lacan) e psicologia de fundamentação corporal (Reich)
Fundamentação científica
Neurociência
Fundamentação metodológica
O Saṁsāra-yoga procura utilizar-se da técnica fundamental de cada método de Yoga clássico, adaptando-a às condições econômico-culturais do ser humano pós-moderno: Desequilíbrio emocional; dificuldade de lidar com frustração; dificuldade de concentração; hípercompetição; híperconsumo; hípernarcisismo; fantasia (realidade virtual); cisão subjetiva; identificação instável através dos múltiplos pequenos 'eus'; ética voltada para o prazer imediato e para a estética corporal.
Técnica fundamental de cada método clássico:
- Karma-yoga (ação perfeita)
- Bhakti-yoga (devoção)
- Hatha-yoga (kūmbhaka)
- Rāja-yoga (nirodha)
- Tantra-yoga (ajapa-japa)
- Jnāna-yoga (ātma-vicāra)
Técnica fundamental do Saṁsāra-yoga :
MANAS-BHūTA-ŚUDDHA – purificação dos elementos grosseiros da substância mental. Esta técnica tem como elemento central a percepção. A técnica é desenvolvida através da ativação do 'olho de Śiva' (Śiva-liṇga) , o olho que tudo vê, ou seja, que vê dentro e fora.
O desenvolvimento da percepção é trabalhado através de uma atitude básica que nomeamos de 'lavar os pratos'. Nesta atitude procuramos unir, em todos os nossos atos, a tríade fundamental da imanência: consciência-respiração-sensação, associado à atitude fundamental do desapego: suprema aceitação da realidade.
Finalidade fundamental
Desenvolver as competências necessárias para a construção do entendimento para a transição pelo desfiladeiro do fantasma no corpo na imanência sem sofrimento (desapego), alcançando desta forma a transcendência. A transição da imanência para a transcendência se dá por uma travessia que vai do Outro ao Ser, isto é, através da prática do desapego a todos os objetos do desejo neurótico, perverso ou psicótico. De acordo com a percepção do método a transcendência é alcançada quando a consciência aprende a viver a imanência sem sofrimento, isto é, sem apego e, consequentemente, sem desenvolver os kleśas (angústia, rigidez).
As competências citadas acima são: percepção, saúde, força, flexibilidade, destreza, equilíbrio, coragem, verdade e desapego.
Siddhi fundamental = 'suprema aceitação da realidade'
completa ausência de sentimento de posse
mente aberta e expansiva
* atitude criativa e proativa
* ausência de sofrimento
* boa vontade.
Etapas do Saṁsāra-yoga:
I - Fase básica e de preparação = Esta fase é adaptada para todos os níveis de praticantes.
Todos podem fazer parte das turmas dessas aulas, não importando a idade, a saúde ou o equilíbrio emocional.
Nesta fase não há restrição quanto à ética, ao comportamento e à alimentação. A sua finali-dade é preparar a estrutura psicocorporal do praticante para as outras fases do treinamento do método, desenvolvendo: Yamas e niyamas, superação dos kleśas, capacidade de concentração, autocontrole emocional, superação de transtornos psicológico-emocionais e de patologias físicas e orgânicas. A sua finalidade principal é a conquista da saúde do corpo, o equilíbrio emocional e psicológico e a conquista de um comportamento ético e estético na vida.
Técnicas da fase básica:
Svuadhyaya (auto-estudo)
yamas e niyamas
Yoganidra
Āsana
Reeducação respiratória – preparação para o prānāyāma
Kriyās
Mantra
II – Fase intermediaria - Sequências de 'prāna-vāyu-āsanas'
Esta fase é constituída de 08 (oito) sequências de āsanas em forma de coreografia, praticadas de acordo com a regra básica da respiração e com aplicação de mudrās. Tem a finalidade de desenvolver consciência respiratória e corporal profunda, resistência respiratória e muscular, consciência da circulação do prāna-vāyu, coordenação psicomotora e equilíbrio. Sua finalidade principal é preparar a mente e o corpo do sādhaka para as poderosas técnicas do Hatha-yoga clássico.
III – Hatha-yoga
Técnicas vigorosas de mudrās, bandhas e prānāyāmas associadas com āsanas, mantras e saṁyama.
Esta fase tem a finalidade principal de revelar para o sādhaka a existência do corpo sutil (sūksma-śārīra) composto de prāna, cakras e nādīs.
Este corpo é conhecido no Hatha-yoga como "corpo diamantino" ou corpo feito de luz. A sua revelação prepara o sādhaka para a prática do ajapa-japa.
IV - Tantra-yoga
O ajapa-japa é a principal técnica tāntrica para se alcançar a ativação da kundalinī . Nesta fase do treinamento o sādhaka trabalha diretamente com a ativação do poder supremo da kundalinī, direcionando-a, através dos prānāyāmas, bandhas e mudrās, para a ativação dos diversos cakras e nādīs do corpo sutil (sūkṣma-śārīra).
CONTEXTUALIZACAO SOCIO-CULTURAL DO MÉTODO DO saṁsāra -YOGA
A ordem simbólica da posse: a lógica do senhor-servo e a antropofagia cultural e familiar.
A cultura ocidental – católica-apostólica-grego-romana – e todas as culturas da humanidade desenvolvidas depois do advento do patriarcalismo, se caracteriza fundamentalmente pela estruturação da condição do 'senhor-servo', em todos os seus níveis de relacionamento. A condição do 'senhor-servo' se estrutura em torno da necessidade de dominação e controle do 'outro'. Segundo W. Reich, que seguiu na psicologia os passos de Karl Marx em sua avaliação das forças sociais no 'o capital'; de Engels em sua obra: 'a origem da família, da sociedade privada e do estado' e de Malinovski em seu livro 'sexo e repressão nas sociedades selvagens', "esta necessidade de dominação tem fundamentação econômica e sexual" (W. Reich, Irrupção da moral sexual repressiva, 1932, Martins Fontes, São Paulo). De acordo com nossa avaliação baseada no Tantraa necessidade de dominação econômica e sexual tem fundamento no supremo estado de desamparo do ser humano, que em sua dissociação-castração do estado divino primordial que nos constitui, é tomado pelo pavor e pelo desespero. A dominação e o controle do 'outro' e dos objetos dá ao jiva uma falsa segurança. Neste contexto a necessidade de poder e posse ou a obediência cega e alienada é o fundamento central da condição do jiva.
Esta estrutura macro de dominação/submissão dissemina-se a partir da classe dominante para todos os substratos sociais, inclusive no seio da família onde ela se reproduz. A nível subjetivo as relações 'senhor-servo'estruturam-se através de uma dominação do masculinosobre ofeminino, sendo este relegado ao recalque para o mundo das sombras, ressurgindo apenas nos poetas, loucos e crianças, pois até as mulheres vêm-se tornando excessivamente masculinizadas! Freud afirmava que "na natureza humana o que esta recalcado éo feminino" ('os três ensaios sobre a sexualidade humana, edições Standard). O feminino, o gozo, os prazeres simplesnão servem para nada na cultura do capital, pois para este o que tem importância é o consumo do supérfluo que produz mais e mais capital.
O pavor que está na base de toda estrutura de dominação, e que desenvolve as estruturas mórbidas de caráter (neurose, perversão e psicose), é uma efervescência (epifenômeno) da experiência de castração, que, fundamentalmente, se constitui em uma radical dissociação entre a consciência (Ātman) e a energia (Kundalinī). Entendemos aqui a castração como a dissociação dualista, a qual chamamos de 'angústia primordial', e não como a entende a psicanálise como sendo o complexo que surge a partir da descoberta da diferença anatômica entre os sexos pela criança por volta dos três a cinco anos de idade. O complexo, ou angústia, de castração faz surgir uma lei na subjetividade, do menino e da menina, que determina o lugar do desejo de cada um. Esta lei diz "isto pode, isto não pode" a cada momento. Esta lei regula a 'ordem simbólicada posse' em nossa cultura do capital e por estar a serviço desta cultura ela é contextualmente injusta e não 'em si mesma'. Na cultura do capital esta lei torna-se contrária à lei fundamental do desejo que diz "isto quero, isto não quero".
A ORDEM SIMBOLICA DA POSSE
A posse é uma condição necessária na evolução espiritual da consciência. A sua importância aparece na equação hindu dos anseios de todo 'ser sensível': dharma-artha-kāma-mokṣa. A posse em nossa cultura aparece em dois níveis: a 'ordem simbólica da posse' no nível do corpo e a 'ordem simbólica da posse' no nível da neurose. A 'ordem' no nível do corpo segue oito estágios no decorrer do desenvolvimento da personalidade. Os dois primeiros são alienantes: a posse do olhar e a posse do alimento. Estes dois estágios estão alienados ao olhar e ao peito da mãe e se constituem em uma alienação natural, necessária à transmissão da tradição; No terceiro estágio, que é a posse das fezes, é o momento em que a criança busca se apoderar de sua vontade própria, que é a manifestação do Śabda-brahman. Aqui aparece o que na psicologia é conhecido como 'pequeno tirânico'; O quarto estágio, que é a posse da libido a nível do órgão sexual, introduz a criança na posse do gozo próprio do corpo; O quinto estágio, que vem a ser a posse da região abdominal (o hara segundo os japoneses), é o momento no qual a criança toma consciência da 'vontade própria do corpo'. Esta posse corresponde ao som pasyantī; O sexto estágio envolve as regiões do peito e da garganta e introduz a criança na posse das palavras que irão comunicar com clareza os seus sentimentos e desejos. Este é o estágio em que surge o som madyamā; o sétimo estágio corresponde à posse no nível espiritual. Neste estágio o 'eu' toma posse de sua natureza espiritual, que se manifesta através da revelação do corpo sutil. Esta revelação se dá após a ativação do ājñā-cakra e do canal do ṣuṣumnā-nadī. O desenvolvimento desses estágios não se dá necessariamente de forma linear. A sua evolução segue o caminho do desejo e do karma, podendo percorrer voltas e voltas até o estágio final se estabelecer definitivamente.
A 'ordem simbólica da posse a nível da neurose` se estrutura a partir da perda da posse do `corpo-próprio` (kundalinī) e se projeta, a partir de desejos de posse e dominação, para os objetos e pessoas. È a partir das frustrações sucessivas na ordem do 'Ser', isto é, na ordem da posse do corpo-próprio, que o jiva, tomado de um estado de pavor e desespero, passa para a ordem do 'Ter',perdendo-se a si mesmo. A análise cultural confirma a percepção de que é a cultura do capital que determina esta passagens, do 'Ser' para o 'Ter' como uma necessidade estrutural de sua existência.
A ORDEM SIMBOLICA DA POSSE E O COMPLEXO DE CASTRAÇÃO
A forma como o complexo de castração é operado no seio das famílias, através do controle rígido, cruel e obsceno, é uma necessidade da cultura de dominação e de formação de impérios. A sua aplicação é feita através das estruturas de dominação e controle: família, escola, religião e estado. Desde a mais tenra idade a criança passa por um processo de dominação e controle rígido, castrador da vida e da espontaneidade com o objetivo de torná-la obediente e alienada de sua 'natureza própria'. Esta mesma lei – "isto pode, isto não pode" – se fosse aplicada em uma suposta e idealizada cultura que valorizasse a vida, o amor e o gozo para todos, em detrimento do capital e do 'mais-gozar' da 'mais-valia' para alguns, certamente ela teria uma outra forma de aplicação, forma esta que seria através do amor e do diálogo, a qual permitiria a expansão da dialética da vida, sempre triangular: tese, antítese e síntese.
OS AVATARES DA CULTURA DO CAPITAL
A cultura de dominação possui os seus avatares que, como correias de transmissão dos seus interesses, se disseminam em toda a sua estrutura exigindo obediência. Esses avatares funcionam como arquétipos que são transmitidos, de geração em geração, na matriz familiar e têm como finalidade básica a manutenção da obediência. Esses avatares são basicamente o 'supereu' e o 'grande outro'. O 'supereu' atua a nível micro, no indivíduo como uma introjeção e o 'grande outro' atua a nível macro, na matriz familiar e na sociedade como um todo. É importante ressaltar que esta transmissão é operada pela matriz familiar de maneira inconsciente. Geralmente o pai e a mãe não percebem que estão reprimindo os filhos, tal como eles foram reprimidos.
A função do 'supereu' na estrutura é levar o jiva à condição de obediência, e esta condição é alcançada através de ameaças de punição e castigo, impedindo, de várias maneiras, que o jiva goze de sua kundalinī-'gozo próprio do corpo'. O recalque da kundalinī leva o jiva a uma condição de impotência, desamparo e submissão, tornando-o, mais tarde, um consumista (compensação da perda do 'gozo próprio do corpo') e mantenedor do sistema capitalista.
A 'couraça muscular do caráter,' que se manifesta como uma rigidez profunda ao longo da coluna vertebral, é o reflexo do supereu no corpo, e se constitui em sua fortaleza e, ao mesmo tempo, na prisão do jiva, tornando-o impotente, desamparado, submisso e consumista. Tal região é o que denominamos de 'desfiladeiro do fantasma no corpo'. Esta fortaleza é construída com os escombros do 'eu', que sucumbe frente às ameaças de castigo, de abandono ou de enlouquecimento, guardando em si todas as fixações (fantasmas) do 'eu'.
O 'supereu' é o avatar do 'grande outro'. Ele é um substrato da herança da parte mais repressora e dura do pai e da mãe, partes estas que por serem traumáticas não puderam ser incorporadas dentro dos limites do 'eu', permanecendo como um corpo estranho, uma consciência moral rígida, inflexível e cruel, um peso na nuca. O 'eu' geralmente se confunde com ele. O 'supereu' opera a partir de três ameaças fundamentais (olha aí o triângulo mais uma vez!): castigo, abandono e loucura, caso o jiva não se permita ser castrado em sua vontade própria. Tais ameaças vêm, espontaneamente ou não, como pensamentos, palavras ou atos. Muitas vezes o 'supereu' atua em uma família totalmente sem palavras, existindo acerca de determinados assuntos um completo silencio, silêncio este que vela uma forte ameaça de castigo.
O 'supereu' diz ao jiva: 'não goze' (da kundalinī), e já na infância ele diz à criança; 'não se masturbe'. Para se entender a importância da proibição da masturbação na criança, no sentido de torná-la obediente, é importante ressaltar que o órgão genital é a porta de entrada da kundalinī no ṣuṣumnā-nadī, porta esta que é o svādhiṣthāna-cakra. Não há outro caminho! Como já nos dizia W. Reich em seu livro 'irrupção da moral sexual repressiva', São Paulo, Martins Fontes, 1932: "A regulação moral da vida sexual pela economia baseada na propriedade privada e na sociedade burguesa é auxiliada na sua tarefa pelas inibições sexuais enraizadas desde a infância...a regulação moralista da vida sexual coincide com o aparecimento de interesses de posse privada...É esse o sentido sociológico da repressão sexual no capitalismo...". Desta forma, a sociedade "exige das crianças obediência aos pais, e prepara para a ulterior obediência aos adultos, à autoridade do estado e do capital, produzindo o receio da autoridade..." (W. Reich).
Por sua vez o 'grande outro' é o avatar da cultura de dominação baseada nas relações de 'senhor-servo', na qual predomina o controle e a repressão. Assim como o 'supereu', o 'grande outro' é uma estrutura arquetípica, cheia de palavras representativas da cultura dominante acerca do que é 'certo' e do que é 'errado'. Ele é transmitido de geração a geração moldado pela matriz de cada família. Embora em cada família ele receba um matiz mais ou menos repressor, mais ou menos cruel, a sua finalidade é sempre a mesma: tornar a criança obediente de uma forma alienada e neurótica, a qual se tornará um adulto impotente, desamparado, submisso e consumista.Os processos mórbidos de personalidade: histeria (fuga da sensação), obsessão (compulsão por determinados pensamentos e comportamentos), esquizoidia (fuga do contato e do conflito), perversão (inversão da lei para si) e psicose (negação/fora-clusão total e absoluta da lei) são elementos estruturais na formação da subjetividade em nossa cultura, e encontram-se em todos sob a forma de traços da personalidade, sendo a base onde se desenvolvem as crenças, as atitudes e os comportamentos disfuncionais, ou seja, a cognição neurótica de dominação e controle. A mensagem subliminar é: 'eu vou dominar você nem que seja através da doença'.
Esta estrutura de dominação sempre foi combatida em nossa cultura desde os primórdios da civilização grego-romana: Heráclito, Sócrates, passando por Espinoza, Shopenhauer, Nietzsche até Bérgson, Derrida, Deleuze. Foi intuída na natureza por Darwin, no seu conceito de adaptação como sobrevivência dos mais "aptos". Percebida por Marx no seu fundamental conceito de "luta de classes", conceito esse baseado na aguda percepção hegeliana da condição dialética do 'senhor-servo'. Aprofundada em nossa subjetividade por Freud em seus estudos da função da crueldade (supereu) na castração e no singular conceito de Lacan do "mais-gozar da mais-valia". Hoje podemos afirmar que todo processo de cura nada mais é do que uma análise da crueldade sofrida pelo 'eu'.